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Atenciosamente, Stan

A liberdade de opinião e o pensamento crítico estão sendo ameaçados pelo Stan Twitter?

Se você não faz parte do Stan Twitter, você pelo menos já ouviu falar sobre, certo? O termo é usado para circular os usuários da rede social que são apaixonados por um artista e o defendem a qualquer custo de qualquer possível crítica. São os fãs apaixonados que contam cada visualização no MV, contabilizam os streams nas plataformas de música e caçam como se fossem criminosos todo e qualquer usuário da rede que faça qualquer crítica que seja minimamente não positiva sobre o artista.
O termo vem de uma conhecida música do rapper Eminem, que conta a história de um fã obcecado por ele que se chama Stan. A música se resume em Stan escrevendo cartas para o artista pelo qual é obcecado, e quando esse artista não o nota ou escreve de volta, ele grava um áudio para ele enquanto se joga com o carro de uma ponte, com a namorada grávida trancada no porta-malas.

Infelizmente, alguns usuários do Stan Twiter fazem jus à péssima conotação que o termo carrega.

Não é só dentro do K-Pop que é bastante comum encontrar uma legião de fãs raivosos denunciando uma conta simplesmente por um elogio acrítico, atiçando que o dono da conta cometa suicídio, ou mesmo buscando e espalhando seus dados pessoais, endereço e telefone nas redes sociais, o chamado doxing.

Em 2019 a crítica musical Ann Powers sofreu um ataque massivo dos fãs da cantora Lana Del Rey após a mesma publicar tweets nada felizes sobre a crítica que recebeu ao seu novo álbum, Norman Fucking Rockwel!. Ann Powers também elogiou o álbum quando fez a sua crítica, mas o que pesou foram somente os desestimos citados.

Esse comportamento efusivo em relação ao fã que defende o artista com todas as suas forças sempre existiu. Antes das redes sociais as reclamações atingiam os editores de mídias musicais por meio de cartas, e até e-mails lá no começo da popularização da internet. O perigo e aumento dessas críticas se deu muito provavelmente pela facilidade e anonimato que as redes sociais oferecem. Todo mundo fica mais corajoso atrás de uma tela, o suficiente para atacar não somente outros fãs, mas críticos, jornalistas e pessoas que estão ali só tentanto fazer o seu trabalho.

Entre 2019 e 2020 uma jornalista foi massivamente atacada nas redes sociais com ameaças de morte, depreciação do seu trabalho – que é na realidade impecável – e questionamento de seu caráter simplesmente porque um dos integrantes do BTS não se pronunciou durante uma entrevista. O grupo tem atualmente um dos fandoms mais ativos do mundo, quebrando recordes de visualizações no Youtube constantemente, lotando estádios e esgotando merchandising oficial, coisas que são todas citadas e enaltecidas na entrevista mencionada. Mas os fãs focaram somente na ausência de uma resposta exclusiva do integrante durante a entrevista, sem sequer se questionar se o mesmo falou alguma coisa, ou se estava em um dia em que preferiu se resguardar.

Após uma série de ataques, e-mails em massa para o editor da mídia, a mesma jornalista precisou se explicar publicamente, e alegou que não, o integrante mencionado não respondeu a nenhuma de suas perguntas. Como era de se esperar.
Também sob a mira dos fãs, um jornalista da TIMES mencionou o discurso de um dos integrantes como de “sintaxe ocasionalmente desconcertante”, o que bastou para que ele entrasse na lista de persona non grata do fandom, mesmo sendo ele próprio um fã. O jornalista também recebeu ameaças, xingamentos, e uma chuva de fãs argumentando que o integrante em questão aprendeu inglês sozinho e não deveria ser julgado por isso.

Lendo o parágrafo completo é possível perceber o que o jornalista quis dizer. O discurso não tem problemas gramaticais, é perfeito em colocações e uso de palavras. Mas um jornalista experiente conhece de longe o discurso que é enfeitado por uma assessoria de imprensa. E lógico, a natureza do jornalista é questionar, e foi exatamente o que ele fez.

Esse comportamento militarizado dos fãs muitas vezes é benéfico também, porque nem tudo no Stan Twitter é ruim. Em muitos momentos são esses fãs apaixonados que identificam e denunciam casos de racismo, homofobia, xenofobia, etc. Esses são tópicos importantes, e os movimentos criados no Stan Twitter já conseguiram tirar a plataforma de muitas pessoas que só estavam ali para disseminar discurso de ódio.

Porém, nem toda crítica negativa é racista, e quando o Stan Twitter usa esse argumento para expressar a sua insatisfação com a liberdade de expressão de alguém de comunicar que aquele artista não agrada ao seu gosto pessoal, existe a minimização de toda uma luta histórica. Ou quando um movimento mundial como o #StopAsianHate é transformado em mais um jeito de falar sobre o seu grupo asiático favorito, reduzindo a violência física de pessoas ao redor do mundo a uma questão de fandom.

 

 

É compreensível que fãs sejam extremamente protetores com artistas que conversam com as minorias no momento em que vivemos, onde minorias marginalizadas em tratamento incrivelmente hostil. Artistas que trazem visibilidade, defendem e enaltecem a diversidade e pregam o amor próprio em meio a conflitos são normalmente mais valorizados e idolatrados. Mas criticar um trabalho em um nível musical não minimiza o prazer que ele pode trazer a você. Uma pessoa pode ser fã do Stray Kids e dizer que o último lançamento do grupo não é seu favorito por uma série de razões, e isso não é minimizar os esforços, representatividade e trabalho árduo do artista. Isso é uma questão de gosto pessoal, não é racismo, não é ataque, é opinião e todo mundo tem o direito de educadamente discordar.

Além de minimizar lutas sociais, muitas dessas atitudes acabam levantando a questão do quanto espaço as pessoas realmente tem para discutir música de modo saudável na internet. É assustador pensar que por medo muitos resumem as discussões musicais e críticas ao offline, preferindo poupar a própria saúde mental a comentar as coisas que gosta. E quando se está em meio a uma pandemia e sair de casa para conversar em um café não é uma opção, o medo de criticar publicamente sem que a crítica seja confundida com um ataque afasta o fã do fandom.

É possível sim, ser fã e ser crítico. O fã não precisa e não deve ser parte da massa que impulsiona cegamente o números de um artista e rejeita toda e auqlquer atitude problemática do mesmo e até dos outros fãs. Enquanto artistas trabalham em sua própria criatividade e vontade de expressar crenças e posições políticas, eles ainda estão trabalhando dentro de um sistema capitalista dominado pelas corporações. As empresas capitalizam na luta social, eles querem que os fãs comprem álbums, ingressos para shows, fanmeeting e produtos oficiais. No K-Pop principalmente, a venda da imagem do artista que está sempre ali para o fã, negando a própria vida pessoal, completamente apaixonado e dedicado àquela pessoa é uma galinha dos ovos de ouro.

É indiscutível, claro, que fãs são o que impulsiona a indústria, e também são os fãs que dentro de suas escolhas críticas podem demonstrar sua insatisfação. Existem meios de consumir um artista sem precisar degradar a saúde mental de outras pessoas enquanto você o faz. Você pode criticar o posicionamento do seu artista favorito sobre questões de justiça social e representação – como foi feito com o movimento #VidasPretasImportam – ou simplesmente escolher não comprar o novo álbum lançado e que você realmente não gostou, mesmo sendo do seu grupo ultimate. Você ainda será um fã e sua política pessoal permanecerá intacta.

Não se trata de diminuir o fandom de ninguém, o artista ou sua capacidade de quebrar recordes. Se trata de permitir que exista espaço para o pensamento crítico e opinião de gosto pessoal em todas as plataformas, sem o medo de precisar ceder a esse poder ao culto da personalidade ou à pressão da cultura padrão, coletivamente. Sem espaço para opiniões, críticas e discussões saudáveis, não há espaço para representatividade, resistência e consumo saudável de música.

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Written by Lun Rezende

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