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Precisamos Falar Sobre: Quando o Fandom Deixa de Ser Seu Lugar Seguro

Fazer parte de um fandom é encontrar pessoas que compartilham seu gosto pessoal. Mas e se esse local vira um campo minado onde você passa a ser calado?

Rad Passion Indy Soulful Spirit

Até os dias de hoje, muitas vezes ser fã de alguma coisa deixa pessoas propensas a diminuição e tiração de sarro, como se o fato de se dedicar a alguma coisa que aparentemente não faz diferença na vida de ninguém transformasse alguém automaticamente em algo sub-humano.

Provavelmente a conexão etimológica da raiz da palavra “fanático” com o fundamentalismo religioso seja o que alimentou a visão negativa do fã, dando essa ideia de que esse indivíduo é errado por gostar de algo, ilusório ou muitas vezes, infantil. Vítimas desse esteriótipo imposto pela sociedade moderna são em grande maioria mulheres, especialmente as mais jovens e vulneráveis que buscam em alguma coisa um motivo para se encaixar em um grupo, fugir mentalmente de uma situação de estresse, ou simplesmente para se dedicar a um hobby nas horas vagas.

Antes da era da internet tomar forma, os fãs já reúniam de alguma forma, se organizando com os antigos fã-clubes, criando e vendendo zines – que deram origem às fanfics – e se organizando por cartas em encontros e convenções. Não por falta de tecnologia, sempre foi comum que esses gostos fossem guardados a sete chaves de pessoas que não compartilhavam os mesmos interesses, simplesmente pela desvalorização de seu caráter por conta da paixão por uma obra. O bullying e ataque a quem era fã se faziam muito mais velados quando ninguém podia ficar escondido atrás de uma tela. Estar protegido por um apelido, uma foto que não é sua e uma conta que você pode simplesmente deletar se acontecer alguma coisa deu aos fãs e os bullies uma coragem ruim. Enquanto por um lado a internet tornou os fãs mais ativos em causas sociais, ela também tornou mais fácil que a saúde mental dessas pessoas se torne mais frágil quando não podem desfrutar de algo que gostam em paz.

O fandom – junção de fãs de alguma coisa em comum – é em sua essência muito inteligente e confortante. É um grupo de pessoas que se apropria da mídia de massa, a remodela e a transforma em algo próprio, distribuindo e consumindo conteúdo original a partir de uma inspiração. É onde grandes artistas e escritores acabam descobrindo e sendo descobertos, e fazem do que era antes um hobby a sua profissão. Também é onde a grande maioria faz conexões com outras pessoas com gosto em comum, criando ali dentro um círculo social que se torna o seu lugar seguro, onde pode se expressar e compartilhar de algo que gosta com pessoas que em suas vidas reais não teriam a menor chance de se conhecer, diferentes em várias camadas.

Mas o que acontece quando esse sentimento de pertencimento é quebrado por aqueles que compartilham o seu amor pela mesma coisa?

Dentro do fandom de k-pop por exemplo, temos uma grande divisão que se assemelha aos fandoms de esportes: cada grupo tem o seu fandom específico, com torcida por prêmios, recordes e reconhecimento. Fãs apaixonados criam contas dedicadas aos seus favoritos, fanbases – os antigos fã-clubes não oficiais – e muitos dedicam a vida a seguir e fotografar seus ídolos em todo e qualquer evento em que participem. Esse amor oferece uma série de benefícios, como o senso de pertencimento, a liberação de dopamina quando em contato com alguma coisa relacionada ao seu ídolo – fazendo o fã mais feliz naquele momento, e cria um pensamento crítico mais forte. Fãs são muito apaixonados pelo que gostam, é natural que dentro daquilo encontrem um detalhe que não os agrada – uma representação problemática ou uma questão social que possa ser destacada – e quando falam sobre isso e discutem o caso com pessoas de diferentes culturas e raízes, geram conhecimento. E assim se fazem significativas mudanças sociais.

Porém, nem sempre apontar um erro em um artista ou obra que se gosta traz discussões saudáveis, e são nesses momentos que o lugar seguro de muito fã se torna o seu maior inferno. M, 22 anos, preta, plus size, estudante de Letras na faculdade da Pensilvânia diz que chegar em casa depois de um dia corrido de aulas e trabalho e poder sentar na frente do computador para ver as novidades dentro do seu fandom favorito era como aliviar todo o estress e esquecer um pouco a vida real. Escritora ativa de fanfics – estórias escritas por fãs e publicadas em sites para leitura gratuita – ela se viu completamente incapaz de continuar as obras que começou após sofrer racismo em uma rede social ao postar um vídeo seu cumprindo um dos desafios do seu grupo favorito. “Eu não sabia que a cor da minha pele me tornaria automaticamente menos fãs”, ela disse em entrevista ao Say K. Já K, 25 anos, fotógrafa, preta, começou a participar dos fandoms mais ativamente entre 2015 e 2016, e atualmente se diz desconfortável ao entrar em uma rede social onde tem uma conta para acompanhar os grupos que gosta. “Tento sempre evitar e bloquear as sementes ruins nos fandoms, mas os assuntos sempre chegam aos trendings ou à minha timeline. Considerando os últimos acontecimentos nos fandoms que participo mais, abrir o twitter tem sido estressante.”

E não para por aí, quando o ataque virtual às pessoas que apontam casos de racismo e apropriação cultural não é dentro do próprio fandom, ele vem de fandoms diferentes. “Eu mencionei brevemente não gostar da musicalidade de um grupo em um post, na minha conta pessoal, e de repente eu estava sofrendo racismo de pessoas que nem gostam das mesmas coisas que eu, questionando meu valor e mandando que eu me matasse”, disse M, “se existia alguma chance de que eu pudesse um dia tentar gostar desses artistas, elas se foram por causa dos fãs.” Não bastassem os ataques a ela, qualquer um dos seus amigos que tentou a consolar acabou entrando na chuva de ataques, “denunciaram a minha conta, dos meus amigos e me encontraram em outra rede social, tive que trancar tudo.” M não foi a única vítima, K também fala sobre episódios que viveu, no mesmo tom. “A mais recente sendo pessoas que me chamaram de histérica, uma das contas falando que “os negros estavam exagerando”, por apontar algo errado sobre o cabelo de um idol e explicar por quê era errado.” O caso de apropriação cultural dentro do visual dos grupos de k-pop não é nada novo, mas que não tinha a atenção devida antes da internet trazer à tona a problemática causada por esse tipo de atitude. E K continua, “E a mais marcante foi em 2018, quando mais de 200 pessoas de um fandom encheram minha DM com ameaças e xingamentos de todos os tipos por discordar de uma opinião bem desrespeitosa da parte delas. Nesse último, precisei desativar a conta.”

Quando perguntadas se existe elitismo dentro dos fandoms, a resposta é a mesma: sim. “Normalmente uma pessoa branca, de cabelo liso loiro ou de cor fantasia, magra e bonita que dita o que é certo ou errado. É a opinião que todo mundo segue, mais do que a do próprio artista! Bônus se essa pessoa só criar projetos de aniversário, organizar doações para outdoors e postar selcas estéticamente bonitas no selca day”, M diz, ressaltando a questão do racismo e gordofobia. K concorda e acrescenta, “Por mais que não devesse existir, algumas pessoas acreditam que são de algum tipo de elite por fazer parte de fandoms específicos, por ter muitos seguidores no twitter ou ter mais acesso a produtos, shows, fansigns etc, se acham “mais fãs” ou “mais dignas”. Usam números e argumentos vazios (muitas vezes contraditórios) para forçar opiniões e até mesmo com intenção de humilhar outros artistas, outros fandoms e até mesmo quem está no mesmo fandom que elas. Essa ideia é tão forte que muitos acabam comprando e favorecendo essa elite imaginária.” E isso cria uma atmosfera nociva, onde ninguém mais consegue ser ouvido quando é essa pessoa quem fala. Antes chamados de BNF – Big Name Fan – agora são chamados só de “contas grandes”, em referência ao seu número de seguidores. E M diz que “quando algo controverso acontece, essas contas grandes nunca ficam do lado dos stans que se ofenderam, sempre do lado do artista, e acabam invalidando e calando todo mundo que deveria ter direito de opinar sobre a apropriação cultural, o racismo, e algumas vezes até a xenofobia. Tem vezes que essas contas calam inclusive os fãs coreanos, que precisam gritar para conseguir explicar uma peculiaridade cultural, uma diferença.”

Mas os fandom deixaram totalmente de ser um lugar seguro? E os recentes ativismos que tem sido motivo de reportagens por todas as partes, falando exclusivamente dos fãs de k-pop?

“É legal saber que existe uma parcela de fãs engajados! São esses que me fazem ficar, porque são os que se calam quando são outras vozes que precisam ser ouvidas. Mas existe muita hipocrisia também.” É M quem lamenta, e K diz que esse ativismo ainda é pouco em relação ao número de fãs que existem. “Ao mesmo tempo que vejo muita gente se educando e querendo educar idols, o número de pessoas que simplesmente escolhe ignorar tudo segue enorme. Sem contar vários casos de hipocrisia onde pedem por empatia, mas na hora de apontar o dedo pro fandom alheio e jogam todo o discurso de gentileza pela janela. É muito fácil se vangloriar das reportagens sobre a situação com o comício do Trump, mas fingir que ataques em massa no twitter ou casos de racismo/apropriação cultural no kpop não existem, por exemplo.” ela menciona em referência aos fãs de k-pop que adquiriram a grande maioria dos ingressos para o comício de Donald Trump com a intenção de deixar o mesmo vazio. Também em demonstração de união e ativismo, os fãs de k-pop inundaram o aplicativo da polícia americana com fancams durante os protestos do Black Lives Matter, impedindo que manifestantes fossem denunciados e presos. São atitudes de consciência política, que quebram a imagem de crianças imaturas apaixonadas por música que querem colocar sobre essas pessoas. Porém, a parcela mais barulhenta dos fandoms continua oprimindo quem deveria ser ouvido. “Ser kpopper não é igual a ser livre de erros e preconceitos só por curtir algo não ocidental. A conversa sobre questões políticas e raciais dentro meio kpop é igualmente necessária quanto fora dele e depois de tanta coisa que presenciei nos últimos anos: precisa urgentemente ganhar força”, é K quem alerta.

“Eu amo ser parte dos fandoms que eu sou, conheci muita gente que me entende mais do que pessoas que cresceram comigo, mas enquanto essas questões não forem colocadas em pauta, e nós formos ouvidos quando uma coisa nos ofende ou não, infelizmente não teremos os fandoms como um lugar seguro”, M coloca. “Ninguém que é fã de alguma coisa está livre de julgamento, a gente precisa se unir e não segregar.”

A necessidade de proteger de seus ídolos da difamação gratuita talvez seja o maior ponto de cegueira do fã quando um erro é apontado, gerando uma corrente de ódio que não afeta só uma conta na internet, por trás da tela, do apelido, existe um ser humano. Esse ser humano tem uma história, experiências, e muitas vezes como lugar seguro somente aquela música, aquele livro, aquela série. Será que vale mesmo a pena arruinar a experiência de alguém por não entender seu ponto de vista? Ou poderemos um dia ver mais ações humanitárias e justas do que ataques a pessoas que apontam uma falha na fachada de perfeição que construímos daquilo que gostamos?

Algo a se pensar.

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Written by Lun Rezende

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